17.8.09

Passei aquela noite inquieto! Talvez fosse o velho colchão de lã, os percevejos que faziam lembrar um dia de peregrinação em santuário afamado, as aranhas de diferentes espécies tecendo e entretecendo os seus condomínios de luxo. Aquela velha casa do Arquimedes Buchanga era, em bom abono da verdade, um estádio olimpico de ácaros, uma espelunca repleta de bicharada e tecidos andrajosos mas um refúgio à prova de qualquer manobra de contra-espionagem ligeira ou profunda (um dia teorizarei sobre estes e outros conceitos).
Apetece-me hoje voltar àquele dia: é assim a amizade. Conheci o Arquimedes em Coria. Andara a monte pela Sierra de Gata, depois de uma suspeita de crime passional alegadamente cometido em Badajoz. Na altura, a paixão por Conchita Luengo e a sua também alegada traição tinha levado Buchanga à loucura. "Buchi", como era conhecido, fugiu clamando a sua inocência, gemendo e chorando num vale de lágrimas... Estando eu em Coria e sabendo que Conchita tinha sido contratada pela nossa congénere peruana, foi com naturalidade que descobri tratar-se de mais uma vítima do torcionário extremeño Casimiro Lomado. Veio Buchi ter comigo a Descargamaría , no vale do rio Arrago. Seguimos depois até Moraleja, onde recolhemos o alguidar com a carne já temperada para a festa. "Esta ternera é fantástica! Estou satisfeito por teres vindo salvar-me. Quem és tu afinal?" Sabia que viria esta pergunta, repetida anos mais tarde até à exaustão no genérico da série 'Zé Gato'... "Vou-te dizer apenas o que necessitas saber: estás livre de qualquer acusação e és um tipo versátil, um camaleão da serra!" Aceitou entusiasmado a proposta de formação e integração dos nossos quadros. Frequentou todos os módulos e executou todas as missões probatórias com afinco. Arquimedes impulsionara a sua vida com convicção. Foi no largo da Catedral, em plena Fiesta de los Toros de San Juan, num tórrido 23 de Junho, que selámos o nosso acordo com um abraço fraternal e um forte odor a suor.
Voltara eu a Coria, encruzilhada tremenda, para sob protecção da discretíssima e ultra-fiel unidade de Buchanga poder entregar o tubo número 23, recuperado no Lesoto. Nas traseiras da igreja paroquial de Robledillo de Gata, esperava-me Alonso Godoy. "Toma. É o tubo 23." Godoy, numa excitação quase pueril, murmurava "No me lo creo, no me lo creo, el 23..." "Acalma-te, Godoy! Porra!! Agora, preciso que me dês a prova, já!" "Entregou-me uma folha de papel pardo na qual estava escrita a letra de 'La Campanera', tema celebrizado por Joselito, Jose Jiménez, o pequeno rouxinol. E era esse o som pouco discreto que brotava do velho e pouco estimado Seat Fura. O tubo 23, contendo a tela de Edmundo Tonaco, 'Sementes de sésamo ao sol de Nagasaki', seguiria em direcção a Amesterdão. No verso da tela as coordenadas da próxima etapa. Joselito continuava estranhamente a ecoar na minha mente como uma bola de bilhar às três tabelas: "Ay! Campanera... aunque la gente no crea, tu eres la mejor de las mujeres porque te hizo dios su pregonera. " Rouxinóis e toutinegras... Ay campanera...

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