12.3.07

Rumo à Patagónia Chilena! Primeira escala, Buenos Aires. Segunda escala, Quito. A ideia é andarmos sem grande lógica perto da área de destino de forma a reforçar a nossa 'cover' de turistas. Em Buenos Aires, para além do mais, tinha de recolher as palavras de activação junto de um agente local. Tinha sido agente do Maradona, no seu início de carreira, e era possível encontrá-lo nas imediações do estádio do Boca Juniors com uma écharpe cor-de-rosa ao pescoço, um cinto com uma fivela em cobre formando o número 10 e um nariz entupido de pó branco que ele garantiria tratar-se de farinha Branca de Neve. Estaria, além do mais, disfarçado de vendedor de contrafacções de refrigerantes americanos. Ao fundo, vislumbrei uma banca com latas de Poca Tola e Red Balls, este último com uma inscrição manuscrita num cartão:"Te va a dar alas". Aproximei-me e ele mostrou-me a écharpe e a fivela. "Javier?" "Si, soy jo!" "Mas... e esse sotaque?" "Tens razão, Toutinegra. Não consigo sotaque decente para o espanhol." Era Teodósio, o Melro, discípulo, como eu, do Grão de Bico mas da classe de 72, um ano fraco. "E as palavras de activação?" "Tens de beber uma Poca Tola primeiro." Bebi-a de um só trago! As latas falsificadas trazem pouco conteúdo. Soube-me a um misto de pomada para o hemorroidal com Água do Castello. "Está óptima!" "Sim, andamos a melhorá-la! Mas vamos ao que interessa. As palavras são: S. Paulo na Estrada para Damasco, a ETA no País Basco!" Achei estranho mas não se questionam passwords. Despedi-me, deixando-lhe em cima da banca dois pesos, um de duzentos gramas e outro de quilo. Agradeceu-me e disse-me para levar umas latas para a jornada. "Obrigado Melro, mas tu precisas mais do que eu, deixa estar." Vi umas lágrimas a inundarem-lhe os olhos, pura comoção, típico da malta de 72 e 87, anos fracos, muito fracos. Parti, sem mais demora. O Jeep que me deveria levar a Quito estava à minha espera. Coloquei os óculos que me permitiriam assumir o disfarce de dentista romeno convertido em treinador de futebol. Abri o meu bloco de notas e anotei, por cima do que, em tempos, Lazlo Boloni havia escrito, antes de mo oferecer: "Mandar ao Melro uma écharpe decente". Lembrei-me da forma como o Grão de Bico me apresentou o Boloni: "Toutinegra, nem dentista nem treinador de futebol, este senhor vai para o Sporting em breve. Sereis campeões." Não há coincidências... Nesse ano, Júlio Isidro planeava mais uma edição póstuma de 'O Passeio dos Alegres'... O mundo não dorme...

1 comment:

Claudia Sousa Dias said...

Também digo.

Uma écharpe é sempre o toque non plus ultra.


CSD